Há dois tipos de torcedores do Fluminense: os que conhecem a quarta estrofe do nosso hino e os que não a conhecem. Afortunadamente, eu jamais cantei o hino do formidável clube de Álvaro Chaves sem encerrá-lo com o trecho: “Vence o Fluminense/ Usando a fidalguia/ Branco é paz e harmonia/ Brilha com o sol da manhã/ Qual luz de um refletor/ Salve o Tricolor”. Até porque, ser tricolor é, acima de tudo, reverenciar a tradição.
Outra maneira de diferenciar os tricolores de truz dos demais me remete ao ano no qual Maradona deu ao Napoli – e à pobre e discriminada província de Nápoles – o primeiro título de sua história. No dia seguinte à épica conquista, o muro do cemitério da cidade apareceu pichado com uma inscrição, claramente dirigida aos mortos: “O que vocês perderam!…”. A frase do anônimo torcedor napolitano pode ser empregada com total acerto em relação aos que não vivenciaram alguns dos grandes momentos da história do clube, como a Máquina de 75 e 76, time com o maior número de craques jamais reunido para defender um clube. Sim, porque se o Santos de Pelé e Coutinho era o Santos de Pelé e Coutinho, a Máquina de Carlos Alberto, Edinho, Paulo César Caju, Gil, Doval, Rivelino e Dirceu era a Máquina de Carlos Alberto, Edinho, Paulo César Caju, Gil, Doval, Rivelino e Dirceu – se é que me faço entender.
Como apaixonado por futebol e literatura, tive a oportunidade de ler volumes e mais volumes com textos de exaltação aos demais clubes – alguns dos quais, a cargo de gente muito talentosa. Sem exceção, os autores de tais escritos gastaram inúmeras horas de trabalho, incontáveis galões de tinta e toneladas de papel tentando provar que seus clubes de devoção eram os mais tradicionais, os mais gloriosos, os mais importantes, ou ainda os mais cult entre todos. De forma que agora eu posso garantir que, de todos os textos de exaltação escritos até aqui, o meu é o único não-ficcional. Porque o óbvio ululante ulula que o único clube capaz de ser apontado como o mais tradicional, o mais glorioso, o mais importante e o mais cult, tudo isso ao mesmo tempo e sem um pingo de exagero, é o Fluminense. Só o Fluminense. Sempre o Fluminense.
O Flamengo, por exemplo, passa a vida pretendendo ser o mais glorioso. Ledo engano. Cumpre ressalvar que eu menciono a esforçada agremiação da Gávea não por implicância ou por deferência – já que ela não passa de uma filial tricolor, criada em 1911, quando o nosso time, que havia conquistado cinco dos seis títulos estaduais disputados até então, decidiu se dividir para dar mais emoção ao campeonato. Um time popular, sem dúvida. Mas desde quando ser um best-seller é garantia de boa literatura? Sem querer tripudiar, afirmo, serenamente, que os mais gloriosos somos nós. O maior dramaturgo e cronista da história do Brasil, Nelson Rodrigues, disse certa vez que “cada brasileiro, vivo ou morto, foi Flamengo por um instante”. Os flamengos (que era como o genial Nelson se referia aos rubro-negros) comemoram essa frase como se fosse um título. Só que eles não repararam em outra frase do mestre: “O Fluminense nasceu com a vocação da eternidade”. Pois aí está: o que Nelson quis dizer, com a picardia que os tricolores percebem e os flamenguistas ignoram é que comparar o Flamengo com o Fluminense é como comparar um instante com a eternidade.
Não passa de uma filial do tricolor
das Laranjeiras”
DAntes que eu me esqueça: comparar a Máquina com o badalado Flamengo de Zico & companhia chega a ser constrangedor para os flamengos. Basta dizer que o nosso camisa dez era o campeoníssimo Rivellino, craque que, como Didi, Castilho, Carlos Alberto, Félix, Paulo César Caju, Gérson, Branco e Romário – que também envergaram o manto verde, branco e grená –, viveu a grandeza da conquista de uma Copa do Mundo. Flamengo? Ora, se até em seu hino eles assumem que passam aperto com a gente, que “no Fla x Flu é um ai Jesus”…
Passemos de um extremo ao outro para falar do Botafogo. O Botafogo, simpático clube de regatas, almeja ser o mais cult e o mais sofrido dos times brasileiros. Outro engano. Só aceitarei discutir isso com quem tenha conhecido os mais profundos grotões do sofrimento. Com alguém que, como eu, tenha acompanhado um jogo contra o Dom Pedro, time formado por bombeiros de Brasília. Os botafoguenses não podem tirar do Fluminense o título de equipe mais estoica. Não até terem visitado as brenhas da terceira divisão, depois de três – eu disse três! – rebaixamentos consecutivos. Nem mesmo posar de minoria sofisticada eles podem, pois a últimas pesquisas mostram que o Botafogo é um típico clube de massa, um quase best-seller, com muito mais torcedores do que o humílimo Flu.
O Vasco? Bem, acho que o Vasco não se candidata a ser maior do que o Fluminense em coisa alguma. Talvez na antipatia de alguns cartolas que passaram por lá. O próprio estádio de São Januário, orgulho do clube da Zona Norte, foi apenas o segundo estádio de clube a abrigar os principais jogos do Brasil. No início do século passado, a joia arquitetônica batizada de Estádio das Laranjeiras, com o Corcovado à direita e o Palácio Guanabara à esquerda, teve o privilégio de ver a gênese de um patrimônio universal batizado de Seleção Brasileira. Com o Vasco eu encerro o capítulo do Rio, e poderia depois dedicar alguns parágrafos à comparação do Fluminense com os grandes de São Paulo e do resto do Brasil. Mas, como meu espaço é limitado, digo apenas que o hino do tricolor da terra da garoa começa assim: “Salve o tricolor paulista”. Pois é. Graças ao Fluminense, o tricolor original, times de três cores como Grêmio, Bahia, Fortaleza e São Paulo – entre tantos que copiaram nossa camisa – necessitam de qualificação adicional: tricolor paulista, tricolor gaúcho etc.
Eu falei de jogadores, mas caberia aqui falar da torcida do Fluminense, a mais bela, educada e intelectualizada do país, que tem o orgulho de ter em suas hostes nomes eternos como os de Nelson Rodrigues, Chico Buarque, Elis Regina, Antônio Carlos de Almeida Braga, Tom Jobim, Noca da Portela, Mário Lago, João Havelange, Ivan Lins, Pedro Malan, Carlos Alberto Parreira, Arthur Moreira Lima, Barbosa Lima Sobrinho, Francisco Horta, Miéle, Ronaldo Bôscoli, Cartola, Ferreira Gullar e Telê Santana, entre muitos outros. Na verdade, todo tricolor é um bardo. Se Shakespeare tivesse nascido no Brasil do século 20, certamente andaria por aí com a careca coberta de pó-de-arroz. .
É preciso mostrar valor face ao
inimigo invencÍvel”
O Fluminense Football Club tem mais de um século de vida. Não são cem anos de regatas, críquete, tênis ou carteado – mas de futebol. O Fluminense é o mais antigo clube de futebol do Rio de Janeiro, um dos mais antigos do Brasil e, indiscutivelmente, o que mais contribuiu para o desenvolvimento do esporte que hoje nos identifica como nação. Ao contrário dos demais grandes clubes cariocas, o Tricolor das Laranjeiras tem o futebol em sua certidão de nascimento e na heráldica de seu escudo. Somos daqueles clubes sem os quais as cinco estrelas que a camisa do Brasil exibe hoje talvez nunca tivessem sido bordadas. Não apenas porque cedeu muitos jogadores para a Seleção, mas principalmente porque estabeleceu os paradigmas da administração esportiva no país. Já em 1904, por exemplo, o clube fundado por Oscar Cox inspirou e apoiou a formação das equipes de futebol de Botafogo, Bangu e América, clubes com os quais disputou o primeiro campeonato carioca em 1906. Disputou e venceu, claro.
Falo em vitórias e chego à pergunta fatal de uma crônica que pretende fazer um inventário das glórias do Tricolor. Quando o Fluminense terá sido maior? Para responder a esta pergunta eu poderia escolher um dos 30 campeonatos estaduais conquistados pelo time, os títulos brasileiros de 1970 e 1984, a Taça Olímpica de 1949 ou ainda o Mundial Interclubes de 1952. Mas será que os momentos mais heroicos do Fluminense terão sido aqueles nos quais conquistou campeonatos? A resposta a essa pergunta poderia perfeitamente ser Nelson Rodrigues – o maior cronista e dramaturgo brasileiro de todos os tempos. O bardo da Aldeia Campista é o maior troféu da história do Fluminense – e o único que jamais será erguido por outros clubes. E é um orgulho saber que o maior tricolor da história não frequentou gramados nem gabinetes acarpetados, mas construiu sua mística do lado de cá da máquina de escrever. Mas eu não gostaria de centrar minha escolha da grande glória do clube num indivíduo.
Em meu coração há um recanto especial para um jogo contra o Náutico, pela terceira divisão do Campeonato Brasileiro. Num Maracanã com arquibancadas interditadas para obras, uma inacreditável multidão de torcedores lotou a geral, quarta-feira à noite, para, sob chuva torrencial, empurrar o time durante a quadra mais difícil de sua existência. Naquele dia eu tive a mais absoluta certeza de que o Tricolor jamais desapareceria, nem com três rebaixamentos seguidos, nem com mil anos de crises e gestões desastrosas. Ali eu entendi que não há abismo suficientemente grande para tragar um clube como o Fluminense.
Porém, se tivesse de escolher apenas um momento para simbolizar a grandeza do clube da rua Álvaro Chaves, eu voltaria no tempo, até 7 de julho de 1912, data em que foi disputado o primeiro Fla x Flu. Com um time formado pelos tricolores campeões invictos de 1911, que deixaram o clube após uma desavença, o Flamengo era a nova sensação do futebol carioca. Do outro lado, o Fluminense encarava a maior ameaça de sua história. Se perdesse – o que seria natural –, o futebol no clube correria grande risco de encerrar as atividades. Mas a heroica e renovada equipe tricolor venceu o Fla x Flu – que permanecerá para sempre como o mais importante da história – e salvou o time do desaparecimento.
Para ser um gigante, não fazem falta títulos mirabolantes, equipes inesquecíveis ou milhões de fanáticos torcedores. O Fluminense tem tudo isso, como de resto quase todos os grandes clubes mundo afora. Não é isso que torna o Tricolor diferente dos demais. Para ser um gigante é preciso mostrar valor diante do inimigo invencível e face ao mais profundo dos abismos. Por duas vezes, ao longo de seu primeiro centenário, o Fluminense esteve à beira da aniquilação – e sobreviveu. Foi com tal fidalguia que o clube das três cores que traduzem tradição se tornou uma lenda. Um clube que, quando menor pareceu, aí mesmo foi que provou ser um gigante.
Porque o Fluminense – e só o Fluminense – pode ser, a um só tempo, o menor e o maior de todos, o mais triste e o mais jubiloso, o mais humano e o mais divino dos clubes do planeta.
Fonte: Revista Football graças à Alexandre Berwanger
